“Inesperado”
A noite chegou sutilmente. Chegou calada. Com passadas suaves. Tão leves quanto os passos dos melhores bailarinos. Tão leves que ninguém percebeu. Quando alguém notava que era noite, não se recordava de sua chegada. Ninguém conseguia afirmar com certeza se houvera dia, se houvera crepúsculo. A todos parecia que sempre fora noite. Noite eterna!
Era uma noite morna, calma, inebriante. Envolvia a todos como por encanto. Todos os gestos de todas as pessoas eram comedidos, lentos, controlados. Os olhares eram lânguidos e distantes os horizontes. A vida parecia transcorrer em câmera lenta.
Eu chegara atrasado àquele espetáculo. Não sabia para onde tinha ido ou de onde estava vindo. Ali cheguei e reconheci os detalhes da cidade, as praças, as ruas e as casas. A atmosfera era diferente. Um vento morno, embriagador, quase imperceptível, fazia-se presente. Um aroma adocicado inebriava os ares e as estrelas brilhavam, incandescentes!
Fiquei muito tempo observando esses detalhes, pois não me lembrava de jamais ter presenciado noite mais acolhedora, extasiante, perfeita! Ao varrer os olhos pelos arredores, nada avistei. As portas e as janelas estavam fechadas. As luzes estavam apagadas. O silêncio era tanto que chegava a ser intrigante, incômodo, estonteante!
Bati às portas, cruzei as praças, dobrei as esquinas. Nada vi que demonstrasse vida. Não encontrei uma pessoa sequer. Não se notava o menor movimento. Só eu parecia respirar daquela atmosfera!
Inquietei-me com tamanha quietude. Quando o desespero começou a apossar-se de mim e o meu inconsciente instigava-me a correr, a gritar, a exasperar-me, ouvi alaridos.
Deslizei-me lentamente ao local de onde ouvira os burburinhos. A meio caminho estaquei, incerto. A curiosidade fez-me mais forte e segui em frente. Fui revendo e reconhecendo todas as pessoas com as quais cruzava diariamente pelas ruas. Pareceu-me que toda a população ali se encontrava.
Mulheres choravam, crianças mantinham-se estáticas e os homens não procuravam disfarçar o vermelho nos olhos.
Perguntei diversas vezes a diversas pessoas o motivo daquele aglomerado. Ninguém parecia ouvir-me, nem sequer notavam-me. Toquei em algumas pessoas e mesmo assim fui totalmente ignorado.
Sentindo inúteis as minhas investidas, abri alas entre a pacífica multidão até chegar ao foco de observação. Ali o choro era mais constante e efervescente, as pessoas estavam mais descontroladas, a tristeza era predominante. Ninguém procurava disfarçar o sofrimento. Os olhos não estavam secos e vermelhos como das pessoas mais distantes, transbordavam em lágrimas. Figuras decompostas traduziam o clímax da dor!
No auge de minha curiosidade, avancei os últimos passos que me separavam do aglomerado e foi então que pude avistar. Um féretro jazia sobre uma mesa. Não sei o que me levou a fazer tal observação, mas notei que o caixão era bem talhado, brilhante, negro e agradável. O mais alto nível de arte. Obra impecável de um artista desconhecido!
Incerto se permitiriam que eu o fizesse, levei a mão para abrir o caixão. Como não pareciam realmente se dar conta da minha presença, puxei lentamente a tampa que ocultava o seu ocupante. Ao fazê-lo, meus olhos estagnaram-se. Pude notar que dentro do caixão jazia o meu corpo. Gélido, inerte, desfalecido!
Waldeci Maciel